sábado, 20 de fevereiro de 2010

“APAVORA, MAS NÃO ASSUSTA”

As Sutis Fronteiras da Apropriação Indébita

Bem, antes de mais nada, compreendam que eu, particularmente, não estou querendo cruzar as fronteiras entre ser uma cronista amadora e uma pretensa ensaísta semântica, mas o cotidiano é a principal fonte de inspiração do cronista e ele às vezes nos leva a aventuras mais ousadas em nossas divagações. São pequenos fatos, às vezes sem importância, às vezes com muita importância, que despertam esse falatório em nossas cabeças que precisamos extravasar de vez em quando. Geralmente, independente da importância do fato em minha vida, é um aspecto intrigante dele que me leva a ocupar minha nem sempre bem-penteada cabecinha com pensamentos “investigativos” acerca desse ocorrido. E não há nada mais intrigante para mim que a repetição aparentemente aleatória de um determinado tipo de evento!

Fato é que, ultimamente, tenho visto pipocar acontecimentos que percorrem, ora do lado de lá, ora do lado de cá, as sutis fronteiras entre referência, homenagem, sátira, citação e... apropriação indébita! É como se isso fosse um terrível subproduto da Pop Art, fomentado pelas tortuosas teias da web, que agora assola nosso dia-a-dia como um fantasma burlesco e ligeiramente grotesco - do tipo que “apavora, mas não assusta”!

É, inesperadamente, me inspirei a começar a falar sobre isso através de um exemplo do que estou falando. Recentemente li a pequena frase que usei acima entre aspas no perfil do recém-criado bloco de carnaval Acadêmicos do Baixo Augusta - Apavora, mas não assusta! E, ao mal-comparar essa proliferação de apropriações indébitas de ideias, desenhos, produtos, textos e subtextos a um tipo de fantasma que inspira ao mesmo tempo pavor e uma certa piedade, lembrei-me dessa frase engraçadinha que tinha ficado registrada em minha mente e resolvi citá-la aqui, já que isso tem tudo a ver com o assunto do qual estou querendo falar nesse desabafo.

A Pop Art consagrou a apropriação de imagens como citação poética e talvez o maior ícone disso sejam as sopas Campbell de Andy Warhol. Por trás do uso da imagem de um produto popularmente consagrado como modelo-objeto de uma obra de arte esconde-se um imenso subtexto crítico à sociedade de consumo americana da época. E, sobre esse subtexto, nem adianta discorrer no momento, pois, como disse inicialmente, não sou nem pretendo ser uma ensaísta acadêmica. Deixo essa tarefa para pessoas mais pacientes do que eu, que sou realmente uma pessoa Pop, em muitos dos sentidos do que esse movimento significou!

Mas, basicamente, quando um criador se apropria de uma criação alheia extremamente popular e a usa como um elemento para compor um novo texto, ideia ou criação, dentro de um diferente contexto - isso não se trata de apropriação indébita, logicamente! Isso é o que realmente pode ser chamado de autêntica criação, dentro do espírito e contexto deflagrados pela Pop Art. Através dessa citação poética de algo extremamente conhecido de todos, geralmente se faz uma crítica, uma sátira ou até uma homenagem ao objeto de alusão.

Já quando o objeto de citação não é tão conhecido do público quanto deveria ser, fica a obrigação ética daquele que se apropria dele ou de sua imagem de citar suas fontes e referências. É claro que a imensa maioria (inclusive na indústria do entretenimento) não age dessa forma. Mais uma vez deixo o aprofundamento para quem tem mais paciência que eu, mas, se desejar, dê um Google em Walter Benjamin e seus conceitos a respeito de simulacro.

A verdade é que, sem a devida importância dada a esse tipo de discussão, fica tudo uma grande confusão para essa grande massa de novos “criadores” que a Internet possibilitou a existência. Eles navegam sem saber exatamente por onde, se apropriam de tudo o que vêem e - num até belo contexto antropofágico que agradaria a Oswald de Andrade! - editam suas pesquisas de forma a parecer que tudo o que está ali naquela sopa Campbell de letrinhas é a mais pura criação deles!

É lamentável, mas não chega a ser, assim, uma lástima, pois realmente - e aqui peço licença mais uma vez aos criadores do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta - para citar a novamente a frase deles que tão bem ilustra essa situação que “apavora, mas não assusta”! Não assusta, por que era de se esperar que isso acontecesse com a facilidade que existe atualmente para se apropriar de tudo e qualquer coisa e com a impunidade com que se escapa ileso disso, até sob o rótulo de Pop Art ou Antropofagia Cultural. Mas apavora, pois nos leva a pensar sobre aonde iremos chegar se as coisas continuarem dessa forma!
Tatiana Bianconcini, 20 de feveriro de 2010.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

BANHO À FANTASIA


Que o Carnaval é, sem sombra de dúvida, a festa mais esperada do ano, a gente está careca de saber, mas o que esperamos dessa festa é o que realmente muda com o passar dos anos. Hoje em dia, as pessoas com quem mais convivo costumam esperar uma boa viagem, a dois, em família ou com um pequeno grupo de amigos, a um local paradisíaco e, preferencialmente, isolado ou selvagem. Sim, conheço os que preferem coisas, digamos, mais animadas e com mais interação com o povo, rs. Mas são, de fato, minoria no meu rol de amizades.

Agora, voltando no tempo, esse desejo comum hoje em dia, de isolamento e descanso, era naquela época coisa de gente “religiosa” - e tão somente! A gente costumava comentar nas rodinhas, na escola: “coitado, fulano foi com a família para um retiro espiritual no Carnaval”... Era coisa de dar dó da pessoa, mesmo! Isso por que a festa de Momo era um acontecimento para todas as idades, todas as gerações, uma oportunidade única no ano de “viver e não ter a vergonha de ser feliz”!

Vivíamos em plena ditadura militar, reclamar do regime ou simplesmente expressar muita felicidade à toa poderia parecer algo meio subversivo, claro. A menos que fosse durante os quatro dias de folia! Eram apenas quatro! Sem micareta, carnaval temporão, nada disso... No máximo, o que havia era uma “Prévia”, um baile especial, duas semanas antes do início da festa. A folia oficial acabava exatamente na terça-feira gorda, selada pela manhã da quarta-feira de cinzas.

Acordar na terça de Carnaval era um ritual que já vinha banhado de saudades antecipadas, uma nostalgia ao contrário, daquilo que só iria voltar dali a um ano, uma ansiedade em ser tão feliz quanto o curto prazo permitisse ser até seu término! E, na Bauru dos anos 70, um ritual mágico traduzia exatamente esse espírito - era o Banho à Fantasia do Bauru Tênis Clube!
Recentemente, acredito que talvez até no último ano, descobri que essa parte tão arraigada de minhas memórias infantis não era algo tão “de domínio público” quanto eu poderia supor. Há alguns anos, em viagem a Bauru durante o Carnaval, pedi à minha família que conseguisse convites para o Carnaval para mim e meu marido, afim de que eu pudesse mostrar a ele o “verdadeiro espírito do Carnaval”, aquele do qual eu sempre falava e pelo qual sempre costumava ser contaminada nessa época do ano, num determinado dia em que cantava sem parar todas as marchinhas e sambas de que eu tinha memória, sem parar, rs!

Para minha imensa surpresa, descobri então que não havia mais Carnaval no Tênis! Como assim??? Mas e o Banho à Fantasia, também acabou??? Sim, tudo acabou, já faz alguns anos... Puxa vida... Que coisa! Como isso aconteceu? E como eu nem fiquei sabendo? Simples assim: nem eu, nem todas as outras pessoas que tinham boas lembranças dessa época estiveram interessadas em “pular o Carnaval” na última década e a nova geração, essa do axé-funk-pagodão estava também interessada em outras coisas, bem diferentes de um baile com marchinhas, cerveja, blocos, maquiagem cheia de purpurina, lança-perfume universitário no salão e a vovó fantasiada, dançando junto com os pais na mesa da família!



Mas e o Banho à Fantasia???...

Ah... O Banho à Fantasia, vou contar a vocês como era. Pois era e nunca mais será! É uma dessas coisas que se foi e que contaremos aos nossos netos, ou aos netos de nossos amigos, assim como nossos avós nos contam sobre os tempos dos cassinos!

A sede do Tênis era um prédio modernista, desses todos pastilhados e cheios de referências náuticas, que ocupava, junto com o complexo esportivo, todo um quarteirão no centro da cidade. As piscinas - eram três! - ocupavam uma área central e podiam ser vistas de quase todos os lugares, inclusive das varandas do salão de baile, no primeiro andar e das janelas do mezzanino em torno do salão.

Havia a olímpica, com arquibancada, trampolim e a plataforma de salto, ou simplesmente a “plata”, como era chamada por nós, essencial num clube com tradição no pólo aquático, que contava com um grupo de aqualoucos ex-veteranos do pólo. Havia a infantil, detestada por 10 entre 10 crianças, pois estar nela significava que você não tinha permissão para fazer tudo o que desejasse fazer. E havia “a piscina” principal!

Imensa, com desenho amebóide, diversas profundidades em diversos pontos, com aquele nojento ladrão de água em toda a volta, para a piscina não transbordar, e... uma praia submersa! Também de formato amebóide, havia uma parte gigante nessa piscina que ficava submersa a no máximo uns 10cm! Era fabuloso ficar deitado ali, tomando sol, conversando e até bebendo uma coca caçulinha, o que não era exatamente permitido, e, depois, simplesmente escorregar pra dentro da parte mais funda da água, dar um mergulho, umas braçadas e voltar para o dolce far niente da “prainha”... Ah, a vida era boa e eu não sabia o quanto!

Pois bem, por razões técnicas que eu não sei bem quais são, uma vez por ano essa piscina precisava ser esvaziada, passar por algumas manutenções e depois ser enchida novamente. Vai daí que foi uma boa ideia fazer isso exatamente depois do Carnaval, quando a ressaca costumava imperar por toda a cidade e o verão e as férias escolares normalmente chegavam ao fim. E, às vésperas desse esvaziamento anual da piscina, acontecia o Banho à Fantasia!

Tá bom, vou parar de enrolar, vou contar finalmente a vocês como era esse tal de Banho à Fantasia! É que uma lembrança boa sempre puxa outra e lembrança boa fora do contexto das outras tantas que a cercam acaba nem ficando tão boa assim! Ehehe!

Era na terça-feira gorda, à tarde! Nesse dia, assim como no domingo, aconteciam os dois bailes infantis. Nesse dia também era o concurso de fantasias infantis, lá em cima, no palco do salão de bailes. Essa é uma parte ruim da lembrança, acontece isso também quando a gente estimula a memória. Pelo menos uma vez na vida, nossa mãe, sozinha ou unida a outras mães, teve uma ideia fantástica para nos fantasiar e fazer-nos participar desse concurso. Eu me lembro até hoje de uma fantasia que minha mãe chamou de “Baiana Estilizada” e que me fez tentar ficar o tempo todo escondida atrás da toalha da mesa. Bom, até a hora do Banho à Fantasia!

Quando era chegada a hora, todos descíamos para a arquibancada que era montada em frente à grande piscina, aquela que eu já contei tão bem a vocês como era, e esperávamos, ansiosamente, pelos melhores momentos daquele memorável dia! O Banho à Fantasia era um concurso de fantasias! Sério, renomado e tudo o mais! Muitas pessoas investiam pequenas fortunas em suas fantasias, mas havia várias categorias: luxo, originalidade, individual, bloco - todas sob uma única regra básica que, se desrespeitada, dava desclassificação - a fantasia tinha que ser inteirinha de papel! E, claro, por baixo dela todos tinha que estar com trajes de banho adequados à moral e aos bons costumes, hahaha!

Aí começava o desfile, primeiro a categoria luxo, arrancando “ohhhhh”s de toda a audiência e comentários do tipo: “Como ele conseguiu fazer essas plumas de papel, será que não são de verdade? Hummm... Esses paetês só podem ser de verdade”! Era de dar inveja a Clóvis Bornay no concurso do Hotel Glória!

Na sequência vinham as fantasias da categoria originalidade, em que se gastava muito mais tutano que dinheiro, tentando condensar em uma única roupa de papel uma ideia que poderia muito bem parecer imoral ou, pior, subversiva, para os critérios da época. A ideia central geralmente era tão bem camuflada que acabava se tornando hermética e, não à toa, era a categoria preferida dos intelectuais de plantão!

Depois vinham os blocos... Neles não se gastava nem muito dinheiro nem tutano! Era tudo de papel crepom, com no máximo um detalhezinho em papel laminado azul metálico! A inspiração era quase sempre a diversão e as piadinhas de salão, enfermeiros com injeção de cerveja e congêneres. Alguns blocos traziam também um pequeno carro alegórico que, além da estrutura e rodas, também devia ser todinho de papel. Os blocos, na verdade, penso eu que entretinham a platéia enquanto os jurados escolhiam os premiados das categorias principais!

Aí, vinha o anúncio dos vencedores... Aplausos, vaias e o gran finale: o vencedor na categoria luxo! Aí... Era o êxtase! Imediatamente, todos os participantes estavam autorizados a pular na piscina com suas fantasias e adereços! Tudo tinha que ser absolutamente destruído pela água - era parte das regras!!! Os primeiros a mergulhar, obviamente, eram os integrantes dos blocos, alucinados, enlouquecidos, doidos pra começar a tingir a água da piscina de todas as cores!

Era comum que os participantes da categoria originalidade fizessem algum tipo de despedida triunfal antes de mergulharem e os luxuosos Clóvis Bornay bauruenses... Ah, era com muito dó que iam aos poucos caminhando pelas águas da prainha em direção ao mergulho final... Muitos haviam gastado meses na confecção de seus trajes e agora, depois ainda de ter sido derrotado por outro concorrente e rival, lá iria tudo por água abaixo na piscina do Tênis! Só lhes restava abrir os braços e posar para uma última foto que seria publicada no caderno especial sobre o Carnaval no dia seguinte...

E a gente, depois de se despedir, às vezes com dó também, de uma ou outra fantasia, mas geralmente só enlouquecendo com aquela alegria desenfreada de desapego, que nos era ensinada sem nenhuma intenção terapêutica, quando tinha mais de 14 anos, já começava a pensar no baile daquela noite! Era o último daquele ano, hora de desapegar do estado de êxtase autorizado e compartilhado, de dar adeus a Momo e de começar a contar os dias para o ano que vem!

Até hoje eu sinto, quando penso nessas coisas, a sensação inigualável da angústia boa que a gente sentia, quando, já quase na manhã da quarta-feira de cinzas, a orquestra começava a tocar repetidamente a mesma música, em marcha lenta, anunciando o final e incendiando a todos no desejo de continuar ali para sempre... “Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai... Tá chegando a hora, o dia já vem raiando, meu bem, e eu tenho que ir embora”...!

Tatiana Bianconcini, 3/2/2010