As Sutis Fronteiras da Apropriação Indébita
Bem, antes de mais nada, compreendam que eu, particularmente, não estou querendo cruzar as fronteiras entre ser uma cronista amadora e uma pretensa ensaísta semântica, mas o cotidiano é a principal fonte de inspiração do cronista e ele às vezes nos leva a aventuras mais ousadas em nossas divagações. São pequenos fatos, às vezes sem importância, às vezes com muita importância, que despertam esse falatório em nossas cabeças que precisamos extravasar de vez em quando. Geralmente, independente da importância do fato em minha vida, é um aspecto intrigante dele que me leva a ocupar minha nem sempre bem-penteada cabecinha com pensamentos “investigativos” acerca desse ocorrido. E não há nada mais intrigante para mim que a repetição aparentemente aleatória de um determinado tipo de evento!
Fato é que, ultimamente, tenho visto pipocar acontecimentos que percorrem, ora do lado de lá, ora do lado de cá, as sutis fronteiras entre referência, homenagem, sátira, citação e... apropriação indébita! É como se isso fosse um terrível subproduto da Pop Art, fomentado pelas tortuosas teias da web, que agora assola nosso dia-a-dia como um fantasma burlesco e ligeiramente grotesco - do tipo que “apavora, mas não assusta”!
É, inesperadamente, me inspirei a começar a falar sobre isso através de um exemplo do que estou falando. Recentemente li a pequena frase que usei acima entre aspas no perfil do recém-criado bloco de carnaval Acadêmicos do Baixo Augusta - Apavora, mas não assusta! E, ao mal-comparar essa proliferação de apropriações indébitas de ideias, desenhos, produtos, textos e subtextos a um tipo de fantasma que inspira ao mesmo tempo pavor e uma certa piedade, lembrei-me dessa frase engraçadinha que tinha ficado registrada em minha mente e resolvi citá-la aqui, já que isso tem tudo a ver com o assunto do qual estou querendo falar nesse desabafo.
A Pop Art consagrou a apropriação de imagens como citação poética e talvez o maior ícone disso sejam as sopas Campbell de Andy Warhol. Por trás do uso da imagem de um produto popularmente consagrado como modelo-objeto de uma obra de arte esconde-se um imenso subtexto crítico à sociedade de consumo americana da época. E, sobre esse subtexto, nem adianta discorrer no momento, pois, como disse inicialmente, não sou nem pretendo ser uma ensaísta acadêmica. Deixo essa tarefa para pessoas mais pacientes do que eu, que sou realmente uma pessoa Pop, em muitos dos sentidos do que esse movimento significou!
Mas, basicamente, quando um criador se apropria de uma criação alheia extremamente popular e a usa como um elemento para compor um novo texto, ideia ou criação, dentro de um diferente contexto - isso não se trata de apropriação indébita, logicamente! Isso é o que realmente pode ser chamado de autêntica criação, dentro do espírito e contexto deflagrados pela Pop Art. Através dessa citação poética de algo extremamente conhecido de todos, geralmente se faz uma crítica, uma sátira ou até uma homenagem ao objeto de alusão.
Já quando o objeto de citação não é tão conhecido do público quanto deveria ser, fica a obrigação ética daquele que se apropria dele ou de sua imagem de citar suas fontes e referências. É claro que a imensa maioria (inclusive na indústria do entretenimento) não age dessa forma. Mais uma vez deixo o aprofundamento para quem tem mais paciência que eu, mas, se desejar, dê um Google em Walter Benjamin e seus conceitos a respeito de simulacro.
A verdade é que, sem a devida importância dada a esse tipo de discussão, fica tudo uma grande confusão para essa grande massa de novos “criadores” que a Internet possibilitou a existência. Eles navegam sem saber exatamente por onde, se apropriam de tudo o que vêem e - num até belo contexto antropofágico que agradaria a Oswald de Andrade! - editam suas pesquisas de forma a parecer que tudo o que está ali naquela sopa Campbell de letrinhas é a mais pura criação deles!
É lamentável, mas não chega a ser, assim, uma lástima, pois realmente - e aqui peço licença mais uma vez aos criadores do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta - para citar a novamente a frase deles que tão bem ilustra essa situação que “apavora, mas não assusta”! Não assusta, por que era de se esperar que isso acontecesse com a facilidade que existe atualmente para se apropriar de tudo e qualquer coisa e com a impunidade com que se escapa ileso disso, até sob o rótulo de Pop Art ou Antropofagia Cultural. Mas apavora, pois nos leva a pensar sobre aonde iremos chegar se as coisas continuarem dessa forma!
Tatiana Bianconcini, 20 de feveriro de 2010.
Pois é, Tati... tudo que é cômodo, que traz comodidade, acaba "acomodando"... hehehe
ResponderExcluirPor um lado, ficou mais fácil criar, se o termo for sinônimo de agrupar ideias, formas, palavras etc, num novo produto.
Porém, pensando sob outro prisma, o exercício da criação fica mais instigante ainda, um verdadeiro desafio, com esta bagagem cada vez maior que carregamos de informações deste mundão afora. Não acha?
bjsss, Ro (a Molisani)
Concordo totalmente, Ro!!!
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