segunda-feira, 9 de agosto de 2010

BONZO NÃO É RAÇÃO


Bem à época que eu ganhei um lindo filhote de boxer, aos 12 anos de idade, começavam a surgir na TV as primeiras propagandas de ração para animais domésticos. O slogan "Bonzo não é ração, é refeição" vivia na cabeça da gente! Na sequência da campanha de Bonzo, da Purina, surgiu a campanha do preparado especial para filhotes: Papita, da mesma marca, balanceado para os jovens 'pets'.

Hoje em dia, passadas algumas décadas, o mercado de luxo para os 'pets' faz isso tudo parecer coisa absolutamente básica. Mas, numa época em que mesmo o mais amado cãozinho comia de fato o resto da nossa comida, a chegada de Bonzo e Papita à TV e às prateleiras mais visíveis dos supermercados era uma novidade e tanto!

Curiosa em saber se o meu filhote estava realmente comendo bem e prazerosamente, além de estar sendo bem nutrido, certo dia resolvi provar um floquinho da sua ração. E... Não é que eu gostei?! Tudo bem, faltava um pouquinho de tempero, mas a textura e o gostinho eram bons, sim!

Como eu achava que o meu cãozinho merecia o melhor de tudo, de festa de batizado com outros cachorros convidados até frequentar outras festas de cachorros promovidas por minhas amigas, com direito a brigadeiro canino - e consequência um tanto quanto desagradável para a mãe dona da casa - julguei que, se ele comia Papita e gostava, natural seria que eu gostasse também!

Vai daí que, num dia de receber amigas para um trabalho em grupo durante a tarde, resolvi inovar nos comes. Lembrei de como havia visto prepararem 'croutons' de casquinha de pão de forma e achei que a receita resultaria numa ótima adaptação! Espalhei um pouco de Papita numa assadeira, temperei com azeite, sal, orégano, pimenta do reino e mais o que achei interessante, levei ao forno médio, mexendo de vez em quando, e, quando ficou com a crocância ideal, coloquei em tigelinhas sobre a mesa de estudo.

Foi um sucesso!

Depois de matarem toda a minha receita, minhas amigas quiseram ver a embalagem do "novo biscoitinho" que eu havia servido a elas. Então, as levei à cozinha e saquei a embalagem de Papita do armário... Digamos que eu aprendi a medir as consequências de uma "surpresinha" inusitada.
Todas ficaram indgnadíssimas, uma delas correu até o lavabo e tentou colocar o dedo na garganta sem sucesso. Todas falavam ao mesmo tempo, juntaram seu material escolar, foram embora praguejando se reunir na casa de outra pessoa e, finalmente, me expulsaram do grupo.

Como já estava na última hora, restou-me fazer o trabalho sozinha mesmo e, além disso, pensar em como reverter esse clima de exílio forçado da minha pessoa que havia sido armado por causa de uma simples e original receitinha. Argumentos teriam que ser usados...

Foi então que eu me lembrei do slogan de Bonzo! Se Bonzo não é ração, é refeição, nada mais natural que seres humanos pudessem também se alimentar dele, correto? E, se Papita era o "Bonzo especial para filhotes", melhor ainda, correto? Como, ainda assim, previ que não iriam acreditar em meus argumentos, talvez fosse melhor colocá-los na boca de algum expert... Que tal o veterinário? Sim, perfeito!

Bem, elas me perdoaram na ocasião, o tempo passou, perdi o contato com a maioria delas. Mas, hoje, sei que não é adequado para seres humanos o consumo de ração animal, por mais "especial" que seja ela. Fica então a pergunta: se não é adequado para consumo humano, mas é adequado para consumo do seu 'pet', balanceado pra ele e tudo o mais, por que contém coisas que fariam mal a uma pessoa e é mais apropriado que dar a sua própria comida ao bichinho? Tá, tudo bem, coisas da biologia, tipo de flora intestinal, essas coisas!

Mas vamos combinar que esse slogan era meio capcioso, então?! Será que eu fui a única pessoa no mundo a considerar a hipótese de nos alimentarmos dessas deliciosas "refeições"? O surgimento, alguns anos mais tarde do cereal - para humanos! - Fibraxx, me faz suspeitar que muitas outras pessoas sentiam saudades da ração dos seus cãezinhos!

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