sexta-feira, 29 de outubro de 2010

VALE TUDO?


Se existe uma coisa que a Rede Globo sabe fazer bem é teledramaturgia e, finalmente, eles criaram um canal a cabo para nos dar a oportunidade de rever tudo aquilo que o horário do Vale a Pena Ver de Novo não permitia - o Viva (canal 36 da Net). Dos programas de humor às minisséries, muita coisa que ficava antes só na nossa memória, ou no Youtube, desfila pela programação. E a cereja no topo do bolo é colocada todos os dias, às quinze para uma da madrugada - a mítica novela Vale Tudo!

A novela é uma obra-prima de Gilberto Braga, dirigida por Denis Carvalho, com um elenco estelar que vai de Glória Pires (Maria de Fátima), Renata Sorrah (Heleninha), Beatriz Segall (Odete Roitman), Antônio Fagundes (Ivan), Regina Duarte (Raquel) até a nossa Greta Garbo (pelo sumiço estratégico há mais de 20 anos) Lídia Brondi, como a produtora de moda Solange. E são muitos outros os astros dessa verdadeira constelação, atores e, principalmente, personagens que entraram para o imaginário popular como se fossem verdadeiras entidades folclóricas.

Só isso já bastaria para entender um pouco o horário de vigília e começar a rever a trama, que está bem no começo, mas, além de uma série de outros ótimos motivos para fazer isso, há ainda um que tenho considerado especialmente bom: o distanciamento que o tempo nos proporciona em relação à trama. A obra televisiva continua boa e fresca, como se tivesse acabado de sair do forno, mas os tempos, indubitavelmente, são outros e isso nos dá a oportunidade de ver tudo com um novo olhar, impossível de se ter na época.

Eu estou tendo uma sensação parecida com a que tive quando, aos cerca de 10 anos de idade, resolvi ler sozinha toda a obra de Monteiro Lobato, que meus pais haviam lido, ao pé da cama, um capítulo por noite, para mim e meu irmão quando ainda éramos muito pequenos. O primeiro livro que eu escolhi para ler foi Caçadas de Pedrinho e quase caí da cadeira quando li essa frase, dita pela Emília: "A onça vai invadir o Sítio e vai comer todo mundo, até a Tia Anastácia, que tem a carne preta!"... Susto! Emília era racista? Mas ela não era o alter-ego de Monteiro Lobato??? Na ocasião eu era muito nova e, com medo de perder as boas memórias guardadas em minha mente, interrompi imediatamente a leitura e nunca mais abri nenhum dos livros!

Mas, com Vale Tudo minha reação de susto está sendo diferente. Gradual e lentamente estou descobrindo, com agradável surpresa, um novo sentido nessa obra!

Em minhas recordações a novela tratava de um universo peculiar em que, talvez pela primeira vez na TV brasileira, os vilões estivessem no centro da narrativa. Maria de Fátima (Glória Pires) principalmente, mas também Odete Roitman (Beatriz Segall), as personagens que (além de Heleninha, claro!) mais ficara grudadas na memória do brasileiro, são as personagens principais e são vilãs. Ambas, pessoas que faziam de tudo para obter o que desejavam. Portanto, para mim, o nome da novela, tão bem escolhido, assim como a música de Cazuza na abertura, referia-se a essa temática do "vale tudo para conseguir o que eu quero", representada pelos principais personagens da novela. Simples e faz sentido!

Mas... Não é exatamente assim. Ou, não é somente assim!

Os principais personagens "bonzinhos" ou vitimizados por uma série de exuberantes vilões são Raquel (Regina Duarte), a mãe que foi roubada pela filha e, ainda assim, continua a amá-la e, de certa forma, disposta a perdoá-la e a produtora da revista Tomorrow, Solange (Lídia Brondi), que acolhe a jovem vilã em sua casa e sofre todas as consequências de se abrigar uma serpente venenosa em seu próprio leito. Os outros todos, com exceção dos asseclas das duas principais vilãs, em minhas recordações, eram ainda pessoas mais ou menos boazinhas, mais ou menos vítimas de circunstâncias causadas pelo Mal como entidade personificada nas personagens "más". Entretanto, não é essa a minha percepção nesse momento em que eu revejo a novela!

Quando Raquel finalmente se decepciona fatalmente e desiste de perdoar a própria filha, seu lema passa a ser algo meio como o de Scarlet O’Hara quando devorava aqueles rabanetes sujos, mas tipicamente maquiado pela atmosfera yuppie da época, algo como: eu vencerei na vida, custe o que custar! Ela "rala", vende sanduíches na praia, mas usa subterfúgios ilegais, como empregar menores de idade favelados que estão sem aulas.

Já Solange Duprat é boa, tenta ser justa o tempo todo e seria quase uma precursora do fantasma do politicamente correto, se não fosse, claro, pela mesma atmosfera yuppie oitentista de vencer a qualquer custo. Nas lições de moral que dá à jovem Maria de Fátima, ela sempre insiste no quanto é preciso "ralar" para se "chegar lá". Solange não se utiliza de truques para alcançar seus objetivos, a ética é o principal elemento de composição da personagem, mas não é ingênua, nem tampouco deixa de ser ambiciosa. Basicamente é a típica workaholic, um ícone de comportamento a ser amplamente seguido. Sacrifica sem dor a vida pessoal pelo sucesso na carreira.

Ou seja, mesmo para as principais "mocinhas" da novela, vale tudo para vencer na vida! Além delas, praticamente todas as outras personagens também se baseiam nas regras desse Vale Tudo. Ivan (Antônio Fagundes) mente sobre sua escolaridade, surrupia documentos secretos e papéis timbrados, tudo para conseguir uma oportunidade de crescer na empresa. Rubinho (Daniel Filho), que sonha fazer sucesso como músico em Nova York, humilha-se tentando conseguir uma passagem de avião a qualquer custo. E, até o filho de Ivan (Danton Mello como excelente ator-mirim), que é uma criança boa, inteligente e compreensiva, sempre que deseja que o pai melhore de vida, complementa que é para ele conseguir lhe comprar o morey-boogie que tanto deseja.

Em maior ou menor grau, todas as personagens que eu tive a chance de rever até esse momento em que a trama começa a se desenrolar, agem fazendo valer qualquer esforço, correto ou não, para conseguirem o que desejam. Até as duas secretárias da diretoria da empresa dos Roitman, personagens quase sem ambições pessoais, Aldeíde (Lília Cabral) e Consuelo (Rosane Goffman) fazem de tudo, não para ajudarem a si mesmas, mas ao amigo Ivan, na sua proposta de alcançar altos cargos.

O Vale Tudo seria geral, se não fosse pela presença de Poliana (Pedro Paulo Rangel), Heleninha Roitman (Renata Sorrah) e seu filho Tiago (Fábio Villa Verde). Esses três representam o contraponto ideal para a ideia de que vencer é necessário a qualquer custo. E, obviamente, como é de se imaginar, são "perdedores" inatos. Poliana já tem o estigma no próprio apelido. Tiago é um jovem que sofre por não se encaixar aos parâmetros gerais. E Heleninha é a personificação da ideia da derrota. Talentosa artista plástica e ilustradora, encontra no alcoolismo o único refúgio para escapar a um mundo tão competitivo e cruel que só a faz sofrer. Ela se acabava tanto, mas tanto, que até hoje seu nome é usado como sinônimo de bêbado. E, como nós ríamos dos porres que ela tomava, hein? Sem pena, nem dó.

Ou seja, tirando mais alguns personagens essencialmente bonzinhos e meio sem-expressão, como Celina (Nathalia Timberg) e Eugênio (Sérgio Mamberti), a novela tentava nos passar a inquestionável "lição" de que valia tudo, tudo mesmo, para vencer. Isso se não quiséssemos nos reduzir às patéticas condições de um Poliana ou até de uma Heleninha, claro! E acho que isso, de fato, ninguém aqui quer, não é mesmo?

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