sexta-feira, 5 de novembro de 2010

NO DIA DO DESIGNER, MINHA HOMENAGEM AO BERÇO MUNDIAL DO DESIGN!


Como filha de arquiteto com veias modernistas, sempre me atraí pelas imagens da Bauhaus retidas em minhas retinas ao longo da infância, mas foi só com cerca de 22 anos, quando já tinha eu mesma deixado a faculdade de arquitetura pela de publicidade e a de publicidade pela de cinema, que compreendi por completo a importância crucial para o mundo de hoje da escola nascida da auspiciosa República de Weimar. Até esse momento, na História da Humanidade, havia uma característica intrínseca à estética não-naïve, por assim chamar às "belas artes", - ela pertencia apenas e tão somente às elites. A Bauhaus veio para mudar isso. Para sempre!

Naquele momento, no restrito mundo dessas elites, ainda imperava o movimento mundial de Arts and Crafts, ou Art Nouveau, artes decorativas ou ainda arte aplicada. Foi algo de extrema importância, que surgiu por causa da demanda de uma nova burguesia industrial. Artesãos geniais, como Lalique (por cujo trabalho eu, pessoalmente, tenho tanta ou mais fascinação que pelo de um Monet, juro!), são realmente equiparados socialmente a virtuosos artistas emergentes. Isso aconteceu por que a nova elite burguesa era maior que a anterior, aristocrática, e demandava por excelentes peças utilitárias para fazer que as suas moradias pudessem, ao menos um pouco, evocar uma atmosfera palaciana e aristocrática. Por isso o rebuscamento dos desenhos utilizados nesse tipo de arte aplicada, que ainda pode ser conhecida estilisticamente pelo nome de Arte Floral.

Mas, lembrem-se!, artesanato não é Design! Nem tampouco arte aplicada o é!


Mas, em 1919, Walter Gropius fundou a Staatliches-Bauhaus (literalmente, casa estatal da construção, mais conhecida simplesmente por Bauhaus) e, ao lado dele, nomes como Mies Van der Rohe, Wassily Kandinsky, Paul Klee, Marcel Breuer e muitos outros, todos geniais até hoje, ajudaram a criar o conceito do que hoje chamamos DESIGN!

Assim como é inegável que a orientação ‘nutricional’ da Bauhaus fosse meio vegetariana, é igualmente impensável se imaginar o surgimento mundial do Design como algo que pudesse acontecer fora do escopo de uma orientação política marxista. A recém-proclamada revolução soviética, 2 anos antes da fundação da escola, era o maior ícone do que desejavam as vanguardas de então, a extensão das conquistas burguesas para toda a população. E surge exatamente daí a necessidade da criação do conceito de Design!

Sim, pois arte aplicada ou artesanato implica ainda na produção de peças exclusivas ou em quantidade demasiadamente pequena para que possam estar disponíveis para toda a população. Em contrapartida, os produtos industrializados, que inauguraram uma nova visão em termos de escala de produção, careciam totalmente de uma ligação mais estreita com a estética das artes. Eram projetados por engenheiros ou homens de formação mecanicista, que pensavam apenas em termos de como torná-los úteis e factíveis. Mas se homens com visão estética inovadora assumissem a tarefa de projetar para a escala industrial, a lacuna estaria preenchida. Nascia assim o conceito de projetar algo para produção em escala, com funcionalidade, baixo custo e desenho inovador e artístico. Isso é o que hoje chamamos de DESIGN!

Nesses 90 anos que se passaram, quase tudo que foi produzido no mundo surgiu pelas mãos de algum designer, da fonte que agora uso quando escrevo este texto ao computador no qual o digito. Basta uma rápida olhadela à sua volta e você verá como está irremediavelmente cercado por objetos ‘de design’. Sim, não é apenas a sua poltrona Corbusier (ou a que você desejaria ter!) que são objetos de design, mas da garrafa pet ao copo de vidro, no qual você despejará seu conteúdo, são também objetos oriundos do Design!



Hoje em dia, a visão do que vem a ser um objeto 'de Design' se tornou meio nebulosa, a nova e pop intelligentzia confunde 'ter design' com 'ter a assinatura de um designer famoso ou ter um design consagrado'. E, infelizmente, essa terrível confusão acabou gerando uma verdadeira inversão de valores em relação ao que desejaram os criadores do conceito de Design. Quem compra por uma "peça assinada" acha absolutamente natural pagar valores expressivos por ela. Para justificar em parte essa cobrança expressiva, muitos designers e empresas diminuem sua escala de produção para tornar seus produtos mais exclusivos ou elitistas. Ou seja, vemos hoje uma "artesatização" do que chamamos de Design e isso é, ironicamente, o oposto do que justificou o seu surgimento.

Por isso, nesse 5 de novembro, dito Dia do Designer, minha homenagem vai à essência do objeto de criação desse profissional: estética, aliada à funcionalidade e à produção em escala! Aos designers 'puristas' que ainda se atém a essa tríade, minhas mais sinceras congratulações! Aos pioneiros que tornaram possível o mundo de hoje, minha incontestável gratidão!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

VALE TUDO?


Se existe uma coisa que a Rede Globo sabe fazer bem é teledramaturgia e, finalmente, eles criaram um canal a cabo para nos dar a oportunidade de rever tudo aquilo que o horário do Vale a Pena Ver de Novo não permitia - o Viva (canal 36 da Net). Dos programas de humor às minisséries, muita coisa que ficava antes só na nossa memória, ou no Youtube, desfila pela programação. E a cereja no topo do bolo é colocada todos os dias, às quinze para uma da madrugada - a mítica novela Vale Tudo!

A novela é uma obra-prima de Gilberto Braga, dirigida por Denis Carvalho, com um elenco estelar que vai de Glória Pires (Maria de Fátima), Renata Sorrah (Heleninha), Beatriz Segall (Odete Roitman), Antônio Fagundes (Ivan), Regina Duarte (Raquel) até a nossa Greta Garbo (pelo sumiço estratégico há mais de 20 anos) Lídia Brondi, como a produtora de moda Solange. E são muitos outros os astros dessa verdadeira constelação, atores e, principalmente, personagens que entraram para o imaginário popular como se fossem verdadeiras entidades folclóricas.

Só isso já bastaria para entender um pouco o horário de vigília e começar a rever a trama, que está bem no começo, mas, além de uma série de outros ótimos motivos para fazer isso, há ainda um que tenho considerado especialmente bom: o distanciamento que o tempo nos proporciona em relação à trama. A obra televisiva continua boa e fresca, como se tivesse acabado de sair do forno, mas os tempos, indubitavelmente, são outros e isso nos dá a oportunidade de ver tudo com um novo olhar, impossível de se ter na época.

Eu estou tendo uma sensação parecida com a que tive quando, aos cerca de 10 anos de idade, resolvi ler sozinha toda a obra de Monteiro Lobato, que meus pais haviam lido, ao pé da cama, um capítulo por noite, para mim e meu irmão quando ainda éramos muito pequenos. O primeiro livro que eu escolhi para ler foi Caçadas de Pedrinho e quase caí da cadeira quando li essa frase, dita pela Emília: "A onça vai invadir o Sítio e vai comer todo mundo, até a Tia Anastácia, que tem a carne preta!"... Susto! Emília era racista? Mas ela não era o alter-ego de Monteiro Lobato??? Na ocasião eu era muito nova e, com medo de perder as boas memórias guardadas em minha mente, interrompi imediatamente a leitura e nunca mais abri nenhum dos livros!

Mas, com Vale Tudo minha reação de susto está sendo diferente. Gradual e lentamente estou descobrindo, com agradável surpresa, um novo sentido nessa obra!

Em minhas recordações a novela tratava de um universo peculiar em que, talvez pela primeira vez na TV brasileira, os vilões estivessem no centro da narrativa. Maria de Fátima (Glória Pires) principalmente, mas também Odete Roitman (Beatriz Segall), as personagens que (além de Heleninha, claro!) mais ficara grudadas na memória do brasileiro, são as personagens principais e são vilãs. Ambas, pessoas que faziam de tudo para obter o que desejavam. Portanto, para mim, o nome da novela, tão bem escolhido, assim como a música de Cazuza na abertura, referia-se a essa temática do "vale tudo para conseguir o que eu quero", representada pelos principais personagens da novela. Simples e faz sentido!

Mas... Não é exatamente assim. Ou, não é somente assim!

Os principais personagens "bonzinhos" ou vitimizados por uma série de exuberantes vilões são Raquel (Regina Duarte), a mãe que foi roubada pela filha e, ainda assim, continua a amá-la e, de certa forma, disposta a perdoá-la e a produtora da revista Tomorrow, Solange (Lídia Brondi), que acolhe a jovem vilã em sua casa e sofre todas as consequências de se abrigar uma serpente venenosa em seu próprio leito. Os outros todos, com exceção dos asseclas das duas principais vilãs, em minhas recordações, eram ainda pessoas mais ou menos boazinhas, mais ou menos vítimas de circunstâncias causadas pelo Mal como entidade personificada nas personagens "más". Entretanto, não é essa a minha percepção nesse momento em que eu revejo a novela!

Quando Raquel finalmente se decepciona fatalmente e desiste de perdoar a própria filha, seu lema passa a ser algo meio como o de Scarlet O’Hara quando devorava aqueles rabanetes sujos, mas tipicamente maquiado pela atmosfera yuppie da época, algo como: eu vencerei na vida, custe o que custar! Ela "rala", vende sanduíches na praia, mas usa subterfúgios ilegais, como empregar menores de idade favelados que estão sem aulas.

Já Solange Duprat é boa, tenta ser justa o tempo todo e seria quase uma precursora do fantasma do politicamente correto, se não fosse, claro, pela mesma atmosfera yuppie oitentista de vencer a qualquer custo. Nas lições de moral que dá à jovem Maria de Fátima, ela sempre insiste no quanto é preciso "ralar" para se "chegar lá". Solange não se utiliza de truques para alcançar seus objetivos, a ética é o principal elemento de composição da personagem, mas não é ingênua, nem tampouco deixa de ser ambiciosa. Basicamente é a típica workaholic, um ícone de comportamento a ser amplamente seguido. Sacrifica sem dor a vida pessoal pelo sucesso na carreira.

Ou seja, mesmo para as principais "mocinhas" da novela, vale tudo para vencer na vida! Além delas, praticamente todas as outras personagens também se baseiam nas regras desse Vale Tudo. Ivan (Antônio Fagundes) mente sobre sua escolaridade, surrupia documentos secretos e papéis timbrados, tudo para conseguir uma oportunidade de crescer na empresa. Rubinho (Daniel Filho), que sonha fazer sucesso como músico em Nova York, humilha-se tentando conseguir uma passagem de avião a qualquer custo. E, até o filho de Ivan (Danton Mello como excelente ator-mirim), que é uma criança boa, inteligente e compreensiva, sempre que deseja que o pai melhore de vida, complementa que é para ele conseguir lhe comprar o morey-boogie que tanto deseja.

Em maior ou menor grau, todas as personagens que eu tive a chance de rever até esse momento em que a trama começa a se desenrolar, agem fazendo valer qualquer esforço, correto ou não, para conseguirem o que desejam. Até as duas secretárias da diretoria da empresa dos Roitman, personagens quase sem ambições pessoais, Aldeíde (Lília Cabral) e Consuelo (Rosane Goffman) fazem de tudo, não para ajudarem a si mesmas, mas ao amigo Ivan, na sua proposta de alcançar altos cargos.

O Vale Tudo seria geral, se não fosse pela presença de Poliana (Pedro Paulo Rangel), Heleninha Roitman (Renata Sorrah) e seu filho Tiago (Fábio Villa Verde). Esses três representam o contraponto ideal para a ideia de que vencer é necessário a qualquer custo. E, obviamente, como é de se imaginar, são "perdedores" inatos. Poliana já tem o estigma no próprio apelido. Tiago é um jovem que sofre por não se encaixar aos parâmetros gerais. E Heleninha é a personificação da ideia da derrota. Talentosa artista plástica e ilustradora, encontra no alcoolismo o único refúgio para escapar a um mundo tão competitivo e cruel que só a faz sofrer. Ela se acabava tanto, mas tanto, que até hoje seu nome é usado como sinônimo de bêbado. E, como nós ríamos dos porres que ela tomava, hein? Sem pena, nem dó.

Ou seja, tirando mais alguns personagens essencialmente bonzinhos e meio sem-expressão, como Celina (Nathalia Timberg) e Eugênio (Sérgio Mamberti), a novela tentava nos passar a inquestionável "lição" de que valia tudo, tudo mesmo, para vencer. Isso se não quiséssemos nos reduzir às patéticas condições de um Poliana ou até de uma Heleninha, claro! E acho que isso, de fato, ninguém aqui quer, não é mesmo?

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

BONZO NÃO É RAÇÃO


Bem à época que eu ganhei um lindo filhote de boxer, aos 12 anos de idade, começavam a surgir na TV as primeiras propagandas de ração para animais domésticos. O slogan "Bonzo não é ração, é refeição" vivia na cabeça da gente! Na sequência da campanha de Bonzo, da Purina, surgiu a campanha do preparado especial para filhotes: Papita, da mesma marca, balanceado para os jovens 'pets'.

Hoje em dia, passadas algumas décadas, o mercado de luxo para os 'pets' faz isso tudo parecer coisa absolutamente básica. Mas, numa época em que mesmo o mais amado cãozinho comia de fato o resto da nossa comida, a chegada de Bonzo e Papita à TV e às prateleiras mais visíveis dos supermercados era uma novidade e tanto!

Curiosa em saber se o meu filhote estava realmente comendo bem e prazerosamente, além de estar sendo bem nutrido, certo dia resolvi provar um floquinho da sua ração. E... Não é que eu gostei?! Tudo bem, faltava um pouquinho de tempero, mas a textura e o gostinho eram bons, sim!

Como eu achava que o meu cãozinho merecia o melhor de tudo, de festa de batizado com outros cachorros convidados até frequentar outras festas de cachorros promovidas por minhas amigas, com direito a brigadeiro canino - e consequência um tanto quanto desagradável para a mãe dona da casa - julguei que, se ele comia Papita e gostava, natural seria que eu gostasse também!

Vai daí que, num dia de receber amigas para um trabalho em grupo durante a tarde, resolvi inovar nos comes. Lembrei de como havia visto prepararem 'croutons' de casquinha de pão de forma e achei que a receita resultaria numa ótima adaptação! Espalhei um pouco de Papita numa assadeira, temperei com azeite, sal, orégano, pimenta do reino e mais o que achei interessante, levei ao forno médio, mexendo de vez em quando, e, quando ficou com a crocância ideal, coloquei em tigelinhas sobre a mesa de estudo.

Foi um sucesso!

Depois de matarem toda a minha receita, minhas amigas quiseram ver a embalagem do "novo biscoitinho" que eu havia servido a elas. Então, as levei à cozinha e saquei a embalagem de Papita do armário... Digamos que eu aprendi a medir as consequências de uma "surpresinha" inusitada.
Todas ficaram indgnadíssimas, uma delas correu até o lavabo e tentou colocar o dedo na garganta sem sucesso. Todas falavam ao mesmo tempo, juntaram seu material escolar, foram embora praguejando se reunir na casa de outra pessoa e, finalmente, me expulsaram do grupo.

Como já estava na última hora, restou-me fazer o trabalho sozinha mesmo e, além disso, pensar em como reverter esse clima de exílio forçado da minha pessoa que havia sido armado por causa de uma simples e original receitinha. Argumentos teriam que ser usados...

Foi então que eu me lembrei do slogan de Bonzo! Se Bonzo não é ração, é refeição, nada mais natural que seres humanos pudessem também se alimentar dele, correto? E, se Papita era o "Bonzo especial para filhotes", melhor ainda, correto? Como, ainda assim, previ que não iriam acreditar em meus argumentos, talvez fosse melhor colocá-los na boca de algum expert... Que tal o veterinário? Sim, perfeito!

Bem, elas me perdoaram na ocasião, o tempo passou, perdi o contato com a maioria delas. Mas, hoje, sei que não é adequado para seres humanos o consumo de ração animal, por mais "especial" que seja ela. Fica então a pergunta: se não é adequado para consumo humano, mas é adequado para consumo do seu 'pet', balanceado pra ele e tudo o mais, por que contém coisas que fariam mal a uma pessoa e é mais apropriado que dar a sua própria comida ao bichinho? Tá, tudo bem, coisas da biologia, tipo de flora intestinal, essas coisas!

Mas vamos combinar que esse slogan era meio capcioso, então?! Será que eu fui a única pessoa no mundo a considerar a hipótese de nos alimentarmos dessas deliciosas "refeições"? O surgimento, alguns anos mais tarde do cereal - para humanos! - Fibraxx, me faz suspeitar que muitas outras pessoas sentiam saudades da ração dos seus cãezinhos!

sábado, 20 de fevereiro de 2010

“APAVORA, MAS NÃO ASSUSTA”

As Sutis Fronteiras da Apropriação Indébita

Bem, antes de mais nada, compreendam que eu, particularmente, não estou querendo cruzar as fronteiras entre ser uma cronista amadora e uma pretensa ensaísta semântica, mas o cotidiano é a principal fonte de inspiração do cronista e ele às vezes nos leva a aventuras mais ousadas em nossas divagações. São pequenos fatos, às vezes sem importância, às vezes com muita importância, que despertam esse falatório em nossas cabeças que precisamos extravasar de vez em quando. Geralmente, independente da importância do fato em minha vida, é um aspecto intrigante dele que me leva a ocupar minha nem sempre bem-penteada cabecinha com pensamentos “investigativos” acerca desse ocorrido. E não há nada mais intrigante para mim que a repetição aparentemente aleatória de um determinado tipo de evento!

Fato é que, ultimamente, tenho visto pipocar acontecimentos que percorrem, ora do lado de lá, ora do lado de cá, as sutis fronteiras entre referência, homenagem, sátira, citação e... apropriação indébita! É como se isso fosse um terrível subproduto da Pop Art, fomentado pelas tortuosas teias da web, que agora assola nosso dia-a-dia como um fantasma burlesco e ligeiramente grotesco - do tipo que “apavora, mas não assusta”!

É, inesperadamente, me inspirei a começar a falar sobre isso através de um exemplo do que estou falando. Recentemente li a pequena frase que usei acima entre aspas no perfil do recém-criado bloco de carnaval Acadêmicos do Baixo Augusta - Apavora, mas não assusta! E, ao mal-comparar essa proliferação de apropriações indébitas de ideias, desenhos, produtos, textos e subtextos a um tipo de fantasma que inspira ao mesmo tempo pavor e uma certa piedade, lembrei-me dessa frase engraçadinha que tinha ficado registrada em minha mente e resolvi citá-la aqui, já que isso tem tudo a ver com o assunto do qual estou querendo falar nesse desabafo.

A Pop Art consagrou a apropriação de imagens como citação poética e talvez o maior ícone disso sejam as sopas Campbell de Andy Warhol. Por trás do uso da imagem de um produto popularmente consagrado como modelo-objeto de uma obra de arte esconde-se um imenso subtexto crítico à sociedade de consumo americana da época. E, sobre esse subtexto, nem adianta discorrer no momento, pois, como disse inicialmente, não sou nem pretendo ser uma ensaísta acadêmica. Deixo essa tarefa para pessoas mais pacientes do que eu, que sou realmente uma pessoa Pop, em muitos dos sentidos do que esse movimento significou!

Mas, basicamente, quando um criador se apropria de uma criação alheia extremamente popular e a usa como um elemento para compor um novo texto, ideia ou criação, dentro de um diferente contexto - isso não se trata de apropriação indébita, logicamente! Isso é o que realmente pode ser chamado de autêntica criação, dentro do espírito e contexto deflagrados pela Pop Art. Através dessa citação poética de algo extremamente conhecido de todos, geralmente se faz uma crítica, uma sátira ou até uma homenagem ao objeto de alusão.

Já quando o objeto de citação não é tão conhecido do público quanto deveria ser, fica a obrigação ética daquele que se apropria dele ou de sua imagem de citar suas fontes e referências. É claro que a imensa maioria (inclusive na indústria do entretenimento) não age dessa forma. Mais uma vez deixo o aprofundamento para quem tem mais paciência que eu, mas, se desejar, dê um Google em Walter Benjamin e seus conceitos a respeito de simulacro.

A verdade é que, sem a devida importância dada a esse tipo de discussão, fica tudo uma grande confusão para essa grande massa de novos “criadores” que a Internet possibilitou a existência. Eles navegam sem saber exatamente por onde, se apropriam de tudo o que vêem e - num até belo contexto antropofágico que agradaria a Oswald de Andrade! - editam suas pesquisas de forma a parecer que tudo o que está ali naquela sopa Campbell de letrinhas é a mais pura criação deles!

É lamentável, mas não chega a ser, assim, uma lástima, pois realmente - e aqui peço licença mais uma vez aos criadores do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta - para citar a novamente a frase deles que tão bem ilustra essa situação que “apavora, mas não assusta”! Não assusta, por que era de se esperar que isso acontecesse com a facilidade que existe atualmente para se apropriar de tudo e qualquer coisa e com a impunidade com que se escapa ileso disso, até sob o rótulo de Pop Art ou Antropofagia Cultural. Mas apavora, pois nos leva a pensar sobre aonde iremos chegar se as coisas continuarem dessa forma!
Tatiana Bianconcini, 20 de feveriro de 2010.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

BANHO À FANTASIA


Que o Carnaval é, sem sombra de dúvida, a festa mais esperada do ano, a gente está careca de saber, mas o que esperamos dessa festa é o que realmente muda com o passar dos anos. Hoje em dia, as pessoas com quem mais convivo costumam esperar uma boa viagem, a dois, em família ou com um pequeno grupo de amigos, a um local paradisíaco e, preferencialmente, isolado ou selvagem. Sim, conheço os que preferem coisas, digamos, mais animadas e com mais interação com o povo, rs. Mas são, de fato, minoria no meu rol de amizades.

Agora, voltando no tempo, esse desejo comum hoje em dia, de isolamento e descanso, era naquela época coisa de gente “religiosa” - e tão somente! A gente costumava comentar nas rodinhas, na escola: “coitado, fulano foi com a família para um retiro espiritual no Carnaval”... Era coisa de dar dó da pessoa, mesmo! Isso por que a festa de Momo era um acontecimento para todas as idades, todas as gerações, uma oportunidade única no ano de “viver e não ter a vergonha de ser feliz”!

Vivíamos em plena ditadura militar, reclamar do regime ou simplesmente expressar muita felicidade à toa poderia parecer algo meio subversivo, claro. A menos que fosse durante os quatro dias de folia! Eram apenas quatro! Sem micareta, carnaval temporão, nada disso... No máximo, o que havia era uma “Prévia”, um baile especial, duas semanas antes do início da festa. A folia oficial acabava exatamente na terça-feira gorda, selada pela manhã da quarta-feira de cinzas.

Acordar na terça de Carnaval era um ritual que já vinha banhado de saudades antecipadas, uma nostalgia ao contrário, daquilo que só iria voltar dali a um ano, uma ansiedade em ser tão feliz quanto o curto prazo permitisse ser até seu término! E, na Bauru dos anos 70, um ritual mágico traduzia exatamente esse espírito - era o Banho à Fantasia do Bauru Tênis Clube!
Recentemente, acredito que talvez até no último ano, descobri que essa parte tão arraigada de minhas memórias infantis não era algo tão “de domínio público” quanto eu poderia supor. Há alguns anos, em viagem a Bauru durante o Carnaval, pedi à minha família que conseguisse convites para o Carnaval para mim e meu marido, afim de que eu pudesse mostrar a ele o “verdadeiro espírito do Carnaval”, aquele do qual eu sempre falava e pelo qual sempre costumava ser contaminada nessa época do ano, num determinado dia em que cantava sem parar todas as marchinhas e sambas de que eu tinha memória, sem parar, rs!

Para minha imensa surpresa, descobri então que não havia mais Carnaval no Tênis! Como assim??? Mas e o Banho à Fantasia, também acabou??? Sim, tudo acabou, já faz alguns anos... Puxa vida... Que coisa! Como isso aconteceu? E como eu nem fiquei sabendo? Simples assim: nem eu, nem todas as outras pessoas que tinham boas lembranças dessa época estiveram interessadas em “pular o Carnaval” na última década e a nova geração, essa do axé-funk-pagodão estava também interessada em outras coisas, bem diferentes de um baile com marchinhas, cerveja, blocos, maquiagem cheia de purpurina, lança-perfume universitário no salão e a vovó fantasiada, dançando junto com os pais na mesa da família!



Mas e o Banho à Fantasia???...

Ah... O Banho à Fantasia, vou contar a vocês como era. Pois era e nunca mais será! É uma dessas coisas que se foi e que contaremos aos nossos netos, ou aos netos de nossos amigos, assim como nossos avós nos contam sobre os tempos dos cassinos!

A sede do Tênis era um prédio modernista, desses todos pastilhados e cheios de referências náuticas, que ocupava, junto com o complexo esportivo, todo um quarteirão no centro da cidade. As piscinas - eram três! - ocupavam uma área central e podiam ser vistas de quase todos os lugares, inclusive das varandas do salão de baile, no primeiro andar e das janelas do mezzanino em torno do salão.

Havia a olímpica, com arquibancada, trampolim e a plataforma de salto, ou simplesmente a “plata”, como era chamada por nós, essencial num clube com tradição no pólo aquático, que contava com um grupo de aqualoucos ex-veteranos do pólo. Havia a infantil, detestada por 10 entre 10 crianças, pois estar nela significava que você não tinha permissão para fazer tudo o que desejasse fazer. E havia “a piscina” principal!

Imensa, com desenho amebóide, diversas profundidades em diversos pontos, com aquele nojento ladrão de água em toda a volta, para a piscina não transbordar, e... uma praia submersa! Também de formato amebóide, havia uma parte gigante nessa piscina que ficava submersa a no máximo uns 10cm! Era fabuloso ficar deitado ali, tomando sol, conversando e até bebendo uma coca caçulinha, o que não era exatamente permitido, e, depois, simplesmente escorregar pra dentro da parte mais funda da água, dar um mergulho, umas braçadas e voltar para o dolce far niente da “prainha”... Ah, a vida era boa e eu não sabia o quanto!

Pois bem, por razões técnicas que eu não sei bem quais são, uma vez por ano essa piscina precisava ser esvaziada, passar por algumas manutenções e depois ser enchida novamente. Vai daí que foi uma boa ideia fazer isso exatamente depois do Carnaval, quando a ressaca costumava imperar por toda a cidade e o verão e as férias escolares normalmente chegavam ao fim. E, às vésperas desse esvaziamento anual da piscina, acontecia o Banho à Fantasia!

Tá bom, vou parar de enrolar, vou contar finalmente a vocês como era esse tal de Banho à Fantasia! É que uma lembrança boa sempre puxa outra e lembrança boa fora do contexto das outras tantas que a cercam acaba nem ficando tão boa assim! Ehehe!

Era na terça-feira gorda, à tarde! Nesse dia, assim como no domingo, aconteciam os dois bailes infantis. Nesse dia também era o concurso de fantasias infantis, lá em cima, no palco do salão de bailes. Essa é uma parte ruim da lembrança, acontece isso também quando a gente estimula a memória. Pelo menos uma vez na vida, nossa mãe, sozinha ou unida a outras mães, teve uma ideia fantástica para nos fantasiar e fazer-nos participar desse concurso. Eu me lembro até hoje de uma fantasia que minha mãe chamou de “Baiana Estilizada” e que me fez tentar ficar o tempo todo escondida atrás da toalha da mesa. Bom, até a hora do Banho à Fantasia!

Quando era chegada a hora, todos descíamos para a arquibancada que era montada em frente à grande piscina, aquela que eu já contei tão bem a vocês como era, e esperávamos, ansiosamente, pelos melhores momentos daquele memorável dia! O Banho à Fantasia era um concurso de fantasias! Sério, renomado e tudo o mais! Muitas pessoas investiam pequenas fortunas em suas fantasias, mas havia várias categorias: luxo, originalidade, individual, bloco - todas sob uma única regra básica que, se desrespeitada, dava desclassificação - a fantasia tinha que ser inteirinha de papel! E, claro, por baixo dela todos tinha que estar com trajes de banho adequados à moral e aos bons costumes, hahaha!

Aí começava o desfile, primeiro a categoria luxo, arrancando “ohhhhh”s de toda a audiência e comentários do tipo: “Como ele conseguiu fazer essas plumas de papel, será que não são de verdade? Hummm... Esses paetês só podem ser de verdade”! Era de dar inveja a Clóvis Bornay no concurso do Hotel Glória!

Na sequência vinham as fantasias da categoria originalidade, em que se gastava muito mais tutano que dinheiro, tentando condensar em uma única roupa de papel uma ideia que poderia muito bem parecer imoral ou, pior, subversiva, para os critérios da época. A ideia central geralmente era tão bem camuflada que acabava se tornando hermética e, não à toa, era a categoria preferida dos intelectuais de plantão!

Depois vinham os blocos... Neles não se gastava nem muito dinheiro nem tutano! Era tudo de papel crepom, com no máximo um detalhezinho em papel laminado azul metálico! A inspiração era quase sempre a diversão e as piadinhas de salão, enfermeiros com injeção de cerveja e congêneres. Alguns blocos traziam também um pequeno carro alegórico que, além da estrutura e rodas, também devia ser todinho de papel. Os blocos, na verdade, penso eu que entretinham a platéia enquanto os jurados escolhiam os premiados das categorias principais!

Aí, vinha o anúncio dos vencedores... Aplausos, vaias e o gran finale: o vencedor na categoria luxo! Aí... Era o êxtase! Imediatamente, todos os participantes estavam autorizados a pular na piscina com suas fantasias e adereços! Tudo tinha que ser absolutamente destruído pela água - era parte das regras!!! Os primeiros a mergulhar, obviamente, eram os integrantes dos blocos, alucinados, enlouquecidos, doidos pra começar a tingir a água da piscina de todas as cores!

Era comum que os participantes da categoria originalidade fizessem algum tipo de despedida triunfal antes de mergulharem e os luxuosos Clóvis Bornay bauruenses... Ah, era com muito dó que iam aos poucos caminhando pelas águas da prainha em direção ao mergulho final... Muitos haviam gastado meses na confecção de seus trajes e agora, depois ainda de ter sido derrotado por outro concorrente e rival, lá iria tudo por água abaixo na piscina do Tênis! Só lhes restava abrir os braços e posar para uma última foto que seria publicada no caderno especial sobre o Carnaval no dia seguinte...

E a gente, depois de se despedir, às vezes com dó também, de uma ou outra fantasia, mas geralmente só enlouquecendo com aquela alegria desenfreada de desapego, que nos era ensinada sem nenhuma intenção terapêutica, quando tinha mais de 14 anos, já começava a pensar no baile daquela noite! Era o último daquele ano, hora de desapegar do estado de êxtase autorizado e compartilhado, de dar adeus a Momo e de começar a contar os dias para o ano que vem!

Até hoje eu sinto, quando penso nessas coisas, a sensação inigualável da angústia boa que a gente sentia, quando, já quase na manhã da quarta-feira de cinzas, a orquestra começava a tocar repetidamente a mesma música, em marcha lenta, anunciando o final e incendiando a todos no desejo de continuar ali para sempre... “Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai... Tá chegando a hora, o dia já vem raiando, meu bem, e eu tenho que ir embora”...!

Tatiana Bianconcini, 3/2/2010